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2 de julho de 2011

Viagem e Quadrinhos - eu nunca mais consegui desassociar...

Existem outras associações que minha mente faz com as  viagens. Uma delas foi a paixão arrebatadora por Histórias em Quadrinhos, as chamadas HQ’s. Eu hoje em dia as coleciono, e defendo minhas pérolas com unhas e dentes, mas tudo isso começou em uma viagem, a vários anos atrás...

Era um verão no meio dos anos oitenta, uma época incrível para ser criança, podem acreditar. Fomos acampar em Santa Catarina, um lugar lindíssimo em Bombinhas, chamado Retiro dos Padres.






Estávamos com a nossa super barraca "Alba Casagrande"   - aqueles monstros com dois quartos, para até doze pessoas  - e acampamos em um lugar bem perto do mar, dentro do camping do Retiro. Parecia  perfeito, até a primeira tempestade. Segurar aquela enorme barraca não foi fácil, e meu pai e minha mãe, os dois únicos adultos da família no momento, não estavam dando conta. Aí que os vizinhos de camping apareceram e deram aquela super força que a gente só encontra em lugares assim. Quem acampa tem altas histórias para contar, de tempestades, falta de água, estar perdido no meio do nada, falta de combustível, até os casos clássicos de abduções e encontros com seres do além no meio do mato - essa era a parte que mais me divertia nas histórias dos adultos, sempre. 



Naquela noite conhecemos uma família de Sapucaia do Sul, no Rio Grande, que nos ajudou com a barraca e o novo local para montá-la. Eles eram super divertidos e diplomados em camping, tinham três filhos mais ou menos com a nossa idade - éramos em três meninas - e de cara todos nos demos muito bem. Os adultos batiam papo e as crianças brincavam, fizemos vários novos amigos, foi o máximo! 


Eu  tinha mania de carregar livros para a viagem, e naquela ocasião levava um de meu avô, uma história árabe sobre desertos e oásis chamada "Laranjas e Tâmaras"  mas estava cansada de ficar lendo aquilo, além de ter um cheirinho de mofo de dar nos nervos.  Minha irmã gostava de Maurício de Souza mas eu não muito, e ela apareceu com um gibi do "Penadinho". Eu adorei! Era diferente da Turma da Mônica, era sombrio mas divertido, Lucifer  era um molequinho  ruivinho da minha idade, e ainda tinha o Cranícola, um crânio falante muito engraçado, eu achei incrível. Andava com este gibi todo tempo.  Aí, certo dia, eu fazendo cara de intelectual debaixo de uma árvore lendo meu gibi do Penadinho - pensem na cena - e aparece o filho do casal de gaúchos, Gustavo, e  pede meu gibi. Eu, bem pouco boba para meus 10 anos de idade, falei que só emprestaria se ele me emprestasse o dele, ele trazia um gibi na mão também. Acerto feito. Me contou parcialmente o que era a história, um casal que não podia viver junto mas que se amava muito, ela era luz e ele escuridão - Manto e Adaga - e no final ainda existia a história de uma guerreira, a Sonja Vermelha. 







Eu achei aquilo tudo um lixo mas, como o Gustavo era tão bonitinho e eu estava gostando tanto dele, se ele dissesse que comer areia era bom eu pedia logo uma porção e meia. Sendo assim, troquei o gibi. Li, achei uma droga - calma, eu tinha 10 anos!!! - e ele foi embora do camping levando meu Penadinho. 


Fiquei muito brava, era meu gibi favorito - leia-se meu único gibi, mas eu era bem arrogante  - como assim ir embora levando ele? E me deixar aquela coisa?? Uma historinha sem pé nem cabeça, não acabava! No final da revista dizia “continua" e eu muito brava... Como assim continua??? Eu quero saber o que acontece com o Manto e a Adaga, e quero saber também por que essa tal Sonja Vermelha está passando fome e por que ela está fugindo na neve de uns guerreiros... Que coisa mais chata isso!!! 


Voltamos para Curitiba, a vida continuou, começaram as aulas, e no caminho para casa tinha uma banquinha de revistas. Eu em março já tinha esquecido do gibi, mas vi na banquinha certa manhã  “Sonja Vermelha Saga". Pensei um pouco, o gibi custava o preço do meu lanche do dia seguinte, mas no próximo verão eu poderia esfregar na cara daquele Gustavo o que aconteceu com a Sonja, aposto que ele não saberia, e então comprei a revista. 


Pobrezinha da moça, ela tinha perdido a família em um ataque a tribo dela  na região da Ciméria. Vivia sozinha desde então, protegida por uma Deusa, aprendeu lutar para se defender e fugia das pessoas que a caçavam e a chamavam de bruxa apenas por que tinha os cabelos vermelhos... Me partiu o coração a história dela, e não pude deixar de comprar a próxima revista, onde ela poderia encontrar o líder da tribo que matou os pais dela. Depois, na saga seguinte, ela encontraria armas mágicas, e na outra saga ela encontraria um guerreiro poderoso chamado Conan... 






Pois é, os anos 80 se foram, nunca mais sequer ouvi falar do tal Gustavo. Não voltamos mais ao Retiro dos Padres, não acampamos mais. Em compensação hoje em dia há um seguro espaço dentro de minha biblioteca para as dezenas de títulos de quadrinhos que se seguiram. Diversos autores, dezenas de quadrinistas, de técnicas de pintura, de escrita, de roteiro. Sagas completas, episódios em duplicata por segurança, séries empacotadas para proteção contra o tempo... O mundo inteiro mudou nos anos 80, mas isso permaneceu comigo desde então, e nunca irá mudar.


Unindo estas lembranças ao post, vai acontecer aqui em Curitiba a GIBICON N# 0  - 1ª Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba, de 15 á 17 de julho de 2011, e é claro que estarei por lá. Durante este tempo também me aproximei da Gibiteca de Curitiba, me tornei frequentadora, conheço alguns dos bons artistas que nossa cidade já produziu e apoio o uso dos quadrinhos de forma didática, pois estudos já comprovaram que eles conseguem acionar diversas porções do cérebro ao mesmo tempo, por lidar com a informação em 3 formatos distintos: O que você lê, o que você vê e a forma como você põe mentalmente em movimento a união da escrita com a arte gráfica.  


Não sei dizer se eu seria diferente atualmente se não tivesse viajado tanto, desde a infância. Eu acredito muito que sim. Os lugares e pessoas que conheci fizeram de mim  o que sou hoje. Mas confesso que o mundo que os quadrinhos me trouxeram me fez ter vontade de ir ainda mais longe, sempre. Lá no primeiro post ( Desfazendo a Mala  )  eu disse que sempre viajei, mesmo quando o veículo era a maionese. Pois bem, apresento-lhes aqui a Maionese das Maioneses!! Divirtam-se, a mim nunca fez mal!! 


E apareçam na Gibicon, ok?  Vejam mais detalhes aqui  GIBICON n# 0
               
Grande abraço a todos!! 

2 comentários:

  1. O Manto e a Adaga viraram personagens da Marvel. Eles fazem parte dos Vigadores como heróis secundários e são vistos brevemente na Guerra Civil.

    Ops... meu lado nerd disse que esse é o post que eu mais gostei nesse Blog :)

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  2. Eu adorei esse post, Carlitcha! Parabéns pelo jeito que descreveu como nasceu sua paixão pelos quadrinhos, e, principalmente, pela Sonja...e pelo Conan... que são histórias que amo, desde que aprendi a ler (e também por causa do meu irmão, que vivia enchendo o saco da minha mãe pra comprar "revistinhas" pra ele)... eu acabava lendo e deixando de lado as coisas de "menina", pra me dedicar à maravilhosa viagem aos mundos de Ciméria, Aquilônia,Nemédia, Hirkânia... frios, quentes, misteriosos e fascinantes!

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